Desde 1998

Acervo público

  1. Início
  2. Acervo
  3. Por que nos tornamos dependentes?

Por que nos tornamos dependentes? — Spotify do Acervo CEC

Narrado por Moisés Esagüi11 min de leitura

O medo está na raiz da dependência, que nasce também da carência afetiva e de modelos familiares que impedem a criança de constituir sua identidade.

Por que nos tornamos dependentes?
Podcast · 18 min 46 s · Ouvir no Spotify

Resumo

O medo e a carência alimentam a dependência. Modelos familiares agressivos, passivos ou controladores podem dificultar a formação da identidade dos filhos, enquanto limites explicados com tranquilidade ajudam a constituí-la. A falta de afeto pode tornar outra pessoa imprescindível, gerando ciúme e posse. Tanto quem submete quanto quem é submetido são dependentes, pois quem controla precisa de alguém para controlar. Também se pode depender de filosofias, crenças ou religiões quando se entrega a elas a responsabilidade pela própria vida. Cada um é responsável por si, e abandonar as dependências é necessário para ser feliz.

Transcrição da fonte

O tema de hoje é por que nos tornamos dependentes. A ideia da nossa evolução é exatamente nos tornarmos absolutamente livres. Na verdade, nós, seres humanos, trabalhamos ao contrário: em vez de buscar a liberdade, tentamos submeter o outro. A questão de ser dependente é importante; precisamos estar atentos, pois assim conseguiremos sair daqueles processos piores, que são os processos de medo. A pessoa se torna dependente por causa do medo. Portanto, se conseguirmos enxergar isso com clareza, as coisas mudam.

Se você é dependente, pode sê-lo de diferentes formas. Por exemplo: fisicamente, se você tiver um problema físico e alguém precisar cuidar de você. Você pode ser dependente emocionalmente e também espiritualmente. Existem outros tipos de dependência. Vamos falar sobre a parte emocional e, depois, podemos abordar o restante. Nós podemos ter dependência emocional familiar; como funciona essa dependência? O filho já nasce dependente do pai. Ele precisará percorrer um caminho para tornar-se independente, embora já nasça dependente. Essa é uma dependência, inicialmente física, que pode se transformar em emocional. Tudo dependerá da orientação e da educação que os pais oferecerem às crianças.

Vamos observar uma relação familiar entre pai e mãe e também as características que definem cada um como agressivo ou passivo. Se um casal tiver, por exemplo, um pai agressivo e a mãe passiva, essa mãe já depende das ações do pai, a menos que o agressivo caia na manipulação do passivo, o que não ocorre sempre. Esse exemplo, esse modelo, fará com que os filhos desenvolvam características de dependência.

Se você tem uma família em que o pai e a mãe são muito equilibrados, bem definidos, organizados e sabem para onde querem ir, terá filhos muito mais saudáveis. Mas, na grande maioria das famílias, isso não ocorre dessa forma; por isso acabamos tendo pessoas com muita dificuldade. Por exemplo, se você tem um pai alcoólatra, já enfrentará uma dificuldade, pois esse pai não será um modelo para você. Você acabará ficando dependente, porque falta um item importante na sua vida: o modelo de homem, o modelo de pai. Então não dará certo. Você encontrará um marido, e esse marido será alcoólatra também, provavelmente, ou viciado em alguma coisa, ou terá as mesmas características do seu pai.

Acabamos ficando dependentes quando não temos modelos muito bons. Estamos falando de uma relação familiar. Se a mãe for muito agressiva, ela pode fazer muitas coisas na sua vida, torná-lo dependente, escravo, submetê-lo, dar-lhe maus exemplos; são situações em que a mãe ou o pai sabem tudo e, no fim, o filho não sabe nada.

Isso é algo muito sério para discutirmos. No trabalho que desenvolvo na clínica, observo pessoas que não conseguiram constituir sua própria identidade porque os pais impediram que os filhos se constituíssem, a fim de controlá-los. Nossa vida se estabelece dentro de alguns parâmetros. Assim, se o "sim" que o teu pai fala é um "sim" que você entende, ele pode explicar o que disse; e o "não" que ele diz também é um "não" verdadeiro, embora possa ser esclarecido. Você já começa a se constituir.

Não basta dizer sim, pois o sim é sempre tranquilo. A pessoa diz: "Olha, eu quero ir para tal lugar." Sim, você vai; então tudo está bem. Mas, quando o pai diz não, ele interrompe a sua continuidade, e essa interrupção, se não tem explicação — porque ele não quer explicar, porque não quer saber o que você pensa, porque "eu sou seu pai e você fica quieto porque eu já disse não" — faz com que você perca a sua identidade, pois não recebe o respeito daquele que é modelo para você.

Os primeiros modelos são o pai e a mãe, os primeiros modelos de homem e mulher. Se ele disser: "Olha, filho, você não vai..." ou "Vou dizer não a você por isso", o tom de voz adequado é importante. Ele está explicando, não brigando nem iniciando uma guerra de poderes. "Eu sou seu pai e você deve ficar quieto" — não é assim. "Filho, sente-se, vamos conversar, e eu explicarei o motivo da negativa." Considero isso muito importante para a pessoa, pois o pai acabou de explicar. Ela pode ficar chateada, pois, por exemplo, um jovem quer fazer as coisas, mas não terá tanto problema. Já foi explicado e, depois, ele entenderá que o pai estava certo.

Isso é importantíssimo na nossa vida, como acontece com uma mãe. Se a mãe diz "não" com raiva, ela não está realmente recusando; está bloqueando o outro de forma destrutiva, o que é muito ruim.

É preciso falar assim: "Olha, não, não vai dar para você; eu vou explicar o porquê do não." Se a pessoa disser: "Você falou 'não' e eu não quero saber", responda: "Por favor, sente-se aqui, que eu vou explicar." Se não for possível explicar naquele momento, diga: "Então, tudo bem, você não quer me ouvir agora; quando quiser ouvir, eu terei a possibilidade de explicar para você." Você está ensinando à pessoa que não está brigando com ela. Esse "não" não é a utilização indevida do poder. O ser humano é muito bom em usar o poder; se você quiser saber se uma pessoa é boa ou má, dê o poder na mão dela e verá o que ela faz com esse poder, porque o ser humano é assim.

Se ele tem o poder, se for mais forte, destrói o outro mesmo. Depois, diremos que um tigre é pior que um ser humano. Não; o tigre mata porque precisa se alimentar, mas não mata alguém por estar com raiva. Ele mata porque necessita de alimento. O ser humano destrói o outro porque quer provar poder, porque pode subjugar o semelhante; por isso existe tanta guerra, e tudo isso nasce do medo. A pessoa que faz isso, do meu ponto de vista, é um grande covarde, o maior dos medrosos. Uma pessoa que é ditadora é medrosa, é covarde.

Liberdade é estar bem. Você não precisa se enfrentar nem provar nada; basta agir conforme acredita, e certamente poderá ouvir o outro e permitir que ele seja o que é. Falamos sobre a dependência, especialmente no contexto familiar, na relação entre pais e filhos, nas características do pai e da mãe, que são fundamentais na formação das crianças, para que elas continuem evoluindo e não reproduzam de forma disfuncional os padrões dos pais.

Aí você vai dizer: mas eu tive um pai muito ruim, o que faço agora? Ou a minha mãe era muito passiva? Ou a minha mãe não gostava do meu pai? Ou meu pai não gostava da minha mãe? Ou meu pai traía a minha mãe? Existem todas as variáveis que você quiser. Se você começar a verificar, não precisa nem se preocupar, porque vai escrever tanto que descobrirá, no final das contas, que o teu item, dois, três itens, estão no meio de milhões de itens. Nós somos seres humanos, temos as nossas dificuldades, precisamos fazer um percurso de crescimento e nos esforçar para ser melhores.

Não é uma boa ideia julgar o próximo. Ele não consegue agir de forma diferente naquele momento. Você pode dizer: "Mas ele é cabeça dura, não quer aprender." É isso que estou dizendo: ele não consegue mudar. Talvez precise de um empurrão para ser diferente. Nesse momento, ele está nas suas dificuldades, nos processos emocionais que o entorpecem e impedem que veja melhor.

Você fala: mas eu estou sofrendo. Claro que está, se agora está dependente e carente, pois uma das causas da dependência é a carência. Se você não recebeu, por exemplo, carinho do pai ou da mãe, buscará isso fora de casa. Essa busca costuma ser intensa, com grande força, porque você não consegue dar conta. Então, o que faz? Tenta resolver a carência afetiva, muitas vezes nas amizades que tem. Assim, um amigo ou amiga torna-se pessoa imprescindível para a sua vida, pois você precisa de alguém próximo para suprir o que não teve.

A dependência se desencadeia de formas complexas; organizá-la é difícil por conta das inúmeras variáveis envolvidas. Não imaginamos o quanto as pessoas têm dificuldades. Ao saber disso, você poderia gastar muito tempo da sua vida analisando, pois temos sete bilhões de pessoas, cada uma se constituindo nesses processos reencarnatórios de forma diferente, com todo tipo de sofrimento. Quando achamos que sofremos muito, é melhor olhar a história e ver o que já foi feito com as pessoas; não importa se estávamos envolvidos ou não, mas já passou de tudo: miséria total, violência total.

É um sofrimento que nem dá para medir. Hoje, quando temos uma dorzinha de barriga, dizemos que estamos muito mal. Não, você não está muito mal; está apenas com uma dorzinha de barriga. Nomeie corretamente a coisa, porque isso ajuda até a resolver. Você vai ao médico, o médico examina, ou toma um medicamento que já conhece e resolve a questão. De qualquer forma, temos a solução.

Se você retroceder cem anos, não havia solução para nada. As pessoas, antigamente, perdiam todos os dentes. Para uma mulher casar com um homem que tinha dente, era preciso fazer um grande esforço — e o contrário também. Você sabe por quê? Não é porque eles não cuidavam, mas porque não tinham recursos para isso. Não havia dentista na região. Os primeiros dentistas trabalhavam com aquele pedal, e a broca era de pedal. Imagine a pessoa desgastando o dente com uma broca de pedal. Isso aconteceu há cinquenta ou sessenta anos.

Estamos agora em uma vantagem muito grande, porque a tecnologia pode colocar um dente novo. Tudo em nós pode ser reposto. Existem algumas coisas que a ciência ainda não conseguiu, mas já faz muitas coisas. Acredito que, em breve, eles trocarão até o corpo. Seu corpo não está muito bom? Então vamos lhe dar um corpo novinho, e você poderá transferir o espírito para o novo corpo. E, embora eu esteja brincando, realmente acredito nisso.

Nossas dependências, por exemplo, em relação aos nossos irmãos, às vezes despertam ciúmes. Uma pessoa não pode sequer se aproximar do irmão sem que surja ciúme, e pode ainda sentir raiva do próprio irmão. Trata-se de uma situação crítica. Você pode pensar que isso não é possível, mas é. Sabemos que queremos tomar posse do outro; isso caracteriza a dependência. Você acha que só quem depende é quem tenta possuir? O indivíduo de quem se tomou posse também é dependente. Estamos falando de dependência e precisamos ter uma visão clara.

A pessoa que tenta submeter o outro é dependente porque precisa de alguém a quem submeter, e quem é submetido também é dependente. A raiz de tudo isso são os nossos medos. Criamos uma estrutura defensiva, mas o medo é a base. Quando a pessoa é carente, sente falta; essa falta gera dependência. Uma pessoa carente já é dependente e não tem condições de cuidar de si mesma, necessitando que alguém ou algo cuide dela.

A dependência não se resume a depender do outro; pode-se depender, por exemplo, de uma filosofia, de uma crença ou de uma religião. Também se pode depender das apostas feitas de que um determinado santo salvará sua vida. Em suma, somos cheios de dependência. Aliás, houve um caso curioso: uma pessoa começou a enfrentar dificuldades e alguém lhe disse: "Use este santinho; ele representa um homem muito bom, São Bento. Carregue-o na carteira e você ficará bem." Ela o colocou na carteira, mas, um dia, surgiu um problema que não conseguiu resolver. Então procurou outro santo e pensou: "Se eu juntar dois santos…" — chegou a ter cem santos na carteira.

Imagine a dificuldade que ela enfrentou. Fomos procurados por causa disso. Ela fazia uma oração a cada santo todos os dias. Alguém lhe disse: "Olha, é uma boa ideia rezar de manhã cedo; por exemplo, quando você está com o São Bento, reze um Pai-Nosso para ele. Quando chega o fim do dia, agradeça e faça outro Pai-Nosso ao São Bento." Como ela incluiu mais um santo, passou a fazer uma oração ao São Bento e outra a outro santinho, totalizando quatro orações. Quando acrescentou o terceiro santo, passaram a ser seis. Em determinado momento, ela entrou em crise porque não conseguia mais rezar. Ela estava enlouquecendo e procurou ajuda, pois a situação ficou muito ruim.

A solução do problema é interessante. Quando ela falou comigo, respondi: "Olha, acho que você está certa. Se eu fosse você, faria o seguinte: substituiria todos esses santos pelo chefe deles." Ela perguntou: "Como assim?" Respondi: "O chefe deles é Cristo. Cristo é quem lhes permite alcançar as coisas. Assim, basta colocar Cristo na sua carteira; não é preciso rezar, basta dizer: 'Jesus, dê-me força, pois preciso.'" Ela perguntou: "Mas isso é verdade?" Respondi: "Estou falando para você. Carregue Cristo e sua vida ficará resolvida." Ela então disse: "Puxa, você está me aliviando, porque eu não aguentava mais rezar."

Ela pegou o Cristo e colocou na carteira. Mas veja: ela era dependente de um santo, passou a ser dependente de cem e, então, passou a ser dependente do Cristo. Está transferindo a responsabilidade da vida dela para o Cristo. Bom, tudo bem. Só parei por aí porque ficaria muito difícil para ela. Eu realmente tinha a intenção de, um dia, fazer com que essa pessoa entendesse que cada um de nós é responsável por si e que devemos abandonar nossas dependências se quisermos ser felizes; isso é fundamental.

Questões levantadas pelo material

  • Por que nos tornamos emocionalmente dependentes?
  • Como dizer não aos filhos sem prejudicar a formação da identidade?
  • Como a carência afetiva leva à dependência emocional?
  • Por que quem tenta controlar os outros também é emocionalmente dependente?
  • Quando a fé religiosa se torna uma forma de dependência?

Palavras-chave

dependência emocionalmedocarênciapais e filhosidentidade

Como citar

ESAGÜI, Moisés. Por que nos tornamos dependentes?. Amparo: Centro de Estudos da Consciência, 15 set. 2023. 1 podcast (18 min 46 s). Disponível em: https://centrodeestudos.org/acervo/por-que-nos-tornamos-dependentes/. Acesso em: 8 nov. 2026.