Resumo
A baixa autoestima faz a pessoa se calar por medo de desagradar ou ser desqualificada. Para participar das relações, é preciso ser o próprio juiz e expressar ideias e sentimentos com tranquilidade, sem competir. Se esse posicionamento não funcionar numa relação disfuncional, a separação pode ser considerada, sem ser regra. Dificuldades com figuras de autoridade e sentimentos de inferioridade podem vir da criação; a terapia pode ajudar, conforme a abordagem escolhida. Na educação das crianças, diálogo, limites claros e explicados, acolhimento e participação na vida de quem cuida delas ajudam a desenvolver a autoestima.
Transcrição da fonte
Namoro há quatro anos e nossa relação não é boa. Ele é agressivo e mandão, e eu apenas obedeço. Sou a sombra dele. Nunca decido nada: o restaurante, a comida, o passeio, ele sempre resolve tudo. Ele até fala que eu sou inútil, que nunca o ajudo a decidir as coisas, mas eu não consigo decidir. Tenho medo de que minha escolha não o agrade. Sou totalmente anulada como pessoa e não tenho coragem de me separar, apesar de desejar isso. Preciso de ajuda.
Você está falando de uma relação disfuncional. Vou falar com sinceridade: não vejo que a culpa seja só dele. Você também não está participando dessa relação. Para participar, precisará manifestar seus sentimentos. Você tem muita dificuldade para dizer algo e relata que não consegue decidir. Tem medo de não agradar o outro; isso já é uma dificuldade. Fazer escolha ou não, você não agrada, pois ele reclama. Então, é melhor que você comece a fazer escolhas. Tome coragem e fale de forma tranquila; não fale alterado, mas comece a se posicionar. Posicione-se com tranquilidade e fale. Posso expressar minha opinião? E você a expressa.
Se ele falar que você não pode falar, então ele está dizendo que você não pode expressar sua opinião, mas depois reclama que você não a dá. Não consigo entender isso; você pode dizer isso a ele. Contudo, isso não significa que você deve parar: continuará insistindo, ou seja, continuará dando sua opinião, de forma tranquila. O tom de voz deve ser adequado, sem alterações, e a velocidade também deve ser calma. Pense no que está dizendo para expressar exatamente o que sente.
Essa relação não pode ser uma competição; você não pode querer vencer o outro, nem mostrar que é melhor ou que tem ideias melhores, pois assim incorrerá no erro que ele já comete. Basta se posicionar; não importa a reação dele, você continua se posicionando, e, em determinado momento, ele começará a pedir sua opinião. Isso pode ser um caminho, mas, neste momento, sua relação não é saudável. Não podemos conviver com uma pessoa em que só existe o outro lado e nós não existimos. Essa não é uma relação feliz.
Se você tiver outras dificuldades, é porque provavelmente tem dificuldade com figuras de autoridade. Essa é uma dificuldade que muita gente tem, pois nosso pai ou nossa mãe brigavam muito conosco, gritavam conosco, esse tipo de coisa. Então, talvez fosse uma boa ideia fazer terapia e buscar a ajuda de um profissional, para que você possa entender melhor por que é assim, por que não consegue se expressar. Toda vez que tenta se expressar, sente que isso é uma ameaça; parece que vai tomar o lugar do outro, invadi-lo, e ele reagirá contra você. Não se trata simplesmente de uma troca: a pessoa fala o que quer e você fala o que quer.
Talvez você perceba isso no momento em que vai cumprimentar as pessoas – um bom dia, boa tarde, boa noite. Quando inicia uma relação com alguém e essa relação exige que você tome uma atitude, é preciso observar seu nível de dificuldade, pois, muitas vezes, quem tem dificuldade com figuras de autoridade também tem dificuldade para entrar numa conversa, para integrar um grupo e até para se manifestar individualmente com outra pessoa. Isso pode acontecer, inclusive, com o seu marido. Se você tem essa dificuldade, é bom verificar como constituiu essa relação, porque ela não é saudável. Não é saudável não poder chegar à esposa, à companheira, ao marido ou a um amigo e falar francamente e abertamente.
Uma das coisas importantes na vida do ser humano é manifestar-se com total liberdade. Se você precisa se controlar para falar, se precisa ficar pensando no que vai dizer para encontrar os melhores caminhos, então não ficará bem. Você afirma que está totalmente anulada como pessoa e não tem coragem de se separar. Não sei se seria o caso de você se separar, mas é preciso que você se reveja e se posicione nesse relacionamento inicialmente. Se, depois, essa primeira posição não funcionar, então você pode dizer: "bom, vou ter que me separar porque não há jeito". Assim, você faz um caminho mais adequado para si, um caminho de bom senso. Não é uma regra; é apenas bom senso.
Queria saber se uma terapia poderia me ajudar a melhorar minha autoestima. Desde pequena, sofro por me considerar inferior às outras pessoas. Todo mundo é melhor que eu: mais inteligente, mais interessante, etc. Eu nunca sou nada. Quando arrumo um namorado, é um drama, pois acho que ele vai me largar a qualquer momento se conhecer alguém mais interessante, e eu acho que todas as mulheres que passam perto de nós são interessantes. Por causa dessa minha insegurança, acabo afastando meus namorados de mim. A terapia ajudaria?
Você está tendo um olhar para uma solução. Quando não damos conta das nossas dificuldades emocionais e a autoestima é algo sério, sofremos muito na relação com o outro. Sempre nos sentimos inferiores, sempre não temos nada a oferecer. Qualquer pessoa que estiver perto de você, se for agressiva, faz com que você se sinta muito inferior e desqualificado. Assim, fica muito fácil que alguém, ao dizer algo, o desqualifique, pois tudo parece ruim para você. Basta a pessoa falar em um ponto em que você tem dificuldade; então, ela já o derruba.
É uma boa ideia buscar recursos para sair desse processo de baixa autoestima. Isso ocorre porque é resultado da sua criação e da vivência com pessoas que provavelmente também tinham a mesma dificuldade. Muitas vezes, nossos pais não tiveram informação nem formação; quando você é criado por pessoas bem formadas, adquire recursos internos para lidar com os movimentos do ego. Quando não os tem, sente-se sempre inferior e não consegue organizar aquilo que é essencial para a vida: os pensamentos, os sentimentos e a estrutura interna.
Nossa estrutura psíquica não tem força para dar conta do ambiente e, muito menos, do nosso ego e de nós mesmos. Talvez seja uma boa ideia procurar ajuda, pois a terapia pode ser útil, embora dependa da abordagem escolhida. A psicologia oferece inúmeras abordagens terapêuticas. Normalmente, a terapia cognitiva é considerada mais rápida, enquanto a psicanálise aprofunda questões que podem estar reprimidas nos porões da consciência, trabalhando para eliminar efeitos retardados que foram plantados na vida da pessoa, o que pode melhorar seu bem-estar. Portanto, será necessário escolher a abordagem mais adequada.
Sou tia de duas crianças de 3 e 7 anos que ficaram órfãs e passei a cuidar delas. São crianças tímidas e arredias e gostaria de saber como educá-las de forma que desenvolvam uma autoestima elevada e se sintam importantes. Sei que ainda é possível fazer algo por elas, mas não sei o que fazer. Poderia me orientar? Uma das coisas que você pode iniciar, em relação a essas crianças, é conversar bastante com elas. É preciso posicionar-se de forma assertiva e tranquila. Considero muito importante, numa relação com o outro, falar de forma clara e adequada, sem flutuações de humor e, principalmente, dizer claramente o que se quer dizer.
É sempre bom pensar no que estamos fazendo e dizendo, para que o outro entenda claramente. É importante que as crianças saibam que o "sim" representa sim e que o "não" representa não. Além disso, precisam compreender o porquê disso. Você pode ser clara, sem ficar exaltada, sem atitudes nervosas ou agressivas. Isso será fundamental para criar essas crianças de forma saudável.
Você pode conversar com cada pessoa, pois uma boa educação consiste em dialogar bastante com os outros. Não fique se escondendo, não se defenda excessivamente e não tenha medo de demonstrar suas dificuldades. É importante conversar sobre tudo, para que os outros saibam que você também é um ser humano. Caso contrário, você acaba se isolando e o outro pensa que está sempre errado por ser imperfeito. Portanto, mantenha muito papo, muita conversa, fale da sua vida e conte o que aconteceu, pois assim eles terão mais contato com você.
Quando você conta algo a uma criança, isso serve como exemplo. Você pode dizer: "Eu fiz isso; quando estudava, fazia aquilo". Tudo isso será assimilado por ela, mas você está fazendo algo mais importante: fazê-la participar da sua vida. Uma pessoa precisa ser acolhida e sentir que participa da vida do outro. Você é tia de duas crianças; deixe isso claro, mostrando que as ama e que fará o melhor possível. Deixe claro também que, se em algum momento elas sentirem alguma dificuldade, podem falar com você sem medo. Não deixe a situação se desenrolar livremente; é preciso orientar claramente o que é certo e o que é errado.
Tenho um problema: nunca consigo falar às pessoas sobre o que penso, sobre meus sentimentos, porque sempre acho que não são importantes. Quando alguém conversa sobre algum assunto, posso até saber falar sobre ele, mas não falo por medo de cometer erro ou de que as pessoas não concordem comigo. Sinto-me muito angustiada por ser assim, mas não sei o que fazer para agir diferente. Gostaria da sua opinião.
Isso tem a ver com a autoestima. Quando a gente tem a autoestima rebaixada, permite que o outro seja nosso juiz. O outro vai nos avaliar sempre. Se você falar qualquer coisa, ele pode dizer que é besteira ou algo assim. A primeira coisa a se pensar é que você deve ser o seu próprio juiz, não o outro. Se você permite que o outro seja seu juiz, não fará nada, pois ficará com medo de tudo. Portanto, seja o seu próprio juiz, fale de forma adequada e exponha suas ideias e sentimentos sem medo de que o outro os critique como besteira.
Cada um de nós tem o direito e a liberdade de colocar os pensamentos e os sentimentos à mesa, embora o outro possa não gostar. Tudo bem se o outro não gostar. Você também não vai gostar de tudo o que o outro fala, certo? Há apenas uma diferença: pode ser que você não diga isso. O outro fala algo e você responde: "Não gostei". Dentro de você surge a impressão de que é coisa boba, mas você não a expressa.
Não acho que, ao nos expressarmos, devamos ser agressivos; devemos falar de forma adequada. Se alguém expõe um pensamento, pode-se dizer: "Olha, foi bom você ter colocado esse seu pensamento, mas eu discordo; penso de outra forma". Dizer o que se pensa torna a conversa muito mais coerente e constitui uma forma educada de se falar. Algumas pessoas, ao falar, já começam xingando, desfazendo e desqualificando tudo. Isso não é uma boa ideia. Aliás, se alguém fizer isso, você pode confrontá-la, perguntando: "Por que está me desqualificando?" Ela terá que explicar o motivo, pois pode não ter percebido. Portanto, se você tem dificuldade de expressar o que pensa às pessoas, comece a falar de forma tranquila e adequada, sem medo da avaliação. Torne-se o seu próprio juiz.
Questões levantadas pelo material
- Como me posicionar no relacionamento sem medo de desagradar?
- Por que tenho dificuldade para me expressar diante de figuras de autoridade?
- A terapia pode ajudar a melhorar a autoestima?
- Como ajudar crianças a desenvolver uma boa autoestima?
- Como falar o que penso sem medo de ser julgado?
Palavras-chave
Como citar
ESAGÜI, Moisés. Como Melhorar a Autoestima. Amparo: Centro de Estudos da Consciência, 11 maio 2020. 1 podcast (16 min 44 s). Disponível em: https://centrodeestudos.org/acervo/como-melhorar-a-autoestima/. Acesso em: 2 nov. 2026.





